Pois é... Pensei que eu iria ficar um tempo sem aparecer aqui, mas há questões que não cabem no outro blog. São aquelas questões pessoais cujo alcance e interesse é bem mais pessoal. Estou lendo muito material para o meu mestrado. Talvez menos do que eu devia, sobre tudo os dificílimos textos e japonês que se me vêem sendo apresentados. Todavia, o que eu tenho lido tem sido determinante no modo como eu venho pensando meu objeto de estudo e, ainda, minha própria condição de permanentemente temporário.
Antes de mais nada, acho que vale a pena dizer para quem não sabe qual o meu objeto de pesquisa. Pretendo estudar a relação entre a educação e a formação da identidade cultural de crianças brasileiras nascidas no Japão ou que passaram a vida inteira neste país. É um tema árido, relativamente recente dentro das ciências sociais, mas que tem recebido grande atenção por parte dos estudiosos. Claro que essa discussão chega pouco à sociedade. Apenas os problemas são visíveis.
Cheguei a este objeto através do filme
Lemon de Luma Yuri Matsubara, uma jovem que está hoje no terceiro ano do Ensino Médio. Ela produziu esta obra quando tinha 14 anos. No filme, resumidamente, a menina sai perguntando a pessoas do seu círculo social qual é, na opinião deles, a nacionalidade dela. Todos são unânimes em dizer: brasileira. Isso porque Luma nasceu no Brasil, de pais brasileiros. Portanto, a nacionalidade dela é brasileira. O conflito se encontra no fato de Luma estar vivendo no Japão desde que era muito pequena. Ela foi educada numa escola japonesa e, recentemente, está se dedicando ao estudo da língua portuguesa uma vez que sua língua materna é o japonês. (Note-se que a expressão língua materna, neste caso, adquire uma tonalidade que começa a gerar estranhamento. O que é a língua materna? Seria melhor dizer "língua afetiva"? "Língua cotidiana" não seria aplicável visto que, em meu caso, por exemplo, o português já não é mais a minha língua cotidiana, mas não deixou de ser a língua em que eu expresso meus sentimentos...) Luma, por tudo que foi dito antes da divagação entre-parênteses, se auto-identifica como "japonesa". Porém, como diz Takeyuki Tsuda em seu "Strangers In The Homeland", "identidade étnica não é apenas desenvolvida internamente através da auto-consciência das diferenças raciais e culturais de um indivíduo mas, também, externamente imposta pela sociedade que exerce dominação sobre um grupo étnico". Portanto, a auto-percepção de Luma sofre um forte abalo à medida em que a sociedade dominante — japonesa — a enxerga como brasileira e mesmo o grupo étnico minoritário — outra criação da mesma sociedade dominante — reclama sua inclusão nele.
No entanto, este post não era para ser sobre o meu objeto de estudo e, sim, sobre uma digressão provocada pela leitura do livro citado no parágrafo anterior. Em poucas palavras, "Strangers In The Homeland" é um trabalho antropológico realizado por um
nikkeijin (descendente de japoneses) nascido nos Estados Unidos (bem, a própria identidade étnica do autor é objeto dentro do estudo). Durante um período, ele esteve em campo no Brasil e no Japão para estudar os nikkeijin brasileiros migrantes.
O capítulo que leio agora trata da questão de como os nikkeis brasileiros, ao migrar para o Japão, reconstróem sua identidade étnica. Para ser bem suscinto, segundo o livro, os nikkeis brasileiros, apesar de plenamente absorvidos pela sociedade local, constituem uma minoria étnica. Isso se dá basicamente por dois fatores: o primeiro seria de ordem "racial" (entre aspas porque não sei se esse conceito é ainda aplicável), ou seja, pelo fato de os nikkeis serem fenotipicamente diferentes do que foi consagrados como "tipicamente brasileiro". (Mais um parenteses apenas para lembrar que o "tipicamente brasileiro" se refere a discutível "teoria das três raças fundadoras" que entende o índio, o negro e o branco e suas mestiçagens como sendo a composição fenotípica deste povo.) Ou seja, a sociedade brasileira e a comunidade nikkei concordam que, o "japonês", mesmo hoje inteiramente integrado, é, de alguma maneira, diferente da composição geral da população. O outro fator seria de ordem cultural visto que a comunidade migrante japonesa no Brasil firmou-se em núcleos que adquiram coesão suficiente para que houvesse a manutenção de certos costumes e outros elementos que fazem o background cultural do nikkei relativamente diferente do grupo brasileiro considerado majoritário. O autor, a partir de vários depoimentos, pôde concluir que os descendentes de japoneses sentem-se (e são vistos como), de certo modo, um pouco japoneses no Brasil e que, no momento em que migraram para o Japão, muitos tinham a perspectiva que seriam assim percebidos na sociedade japonesa.
(segue em outro momento)
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