JAPÃO REVOLUCIONÁRIO
Quem mora no Japão sabe que os japoneses são um povo não muito afeito a manifestações públicas. Debates também são pouco vistos. A política partidária é algo bem monótono por aqui, principalmente em comparação com o Brasil. No entanto, o país tem as suas rugas e, ao contrário do que procuram idealizar os maniqueístas, o Japão não é um país homogêneo. Ontem fomos cobrir uma manifestação em frente ao Parlamento japonês em Tóquio. Chegamos lá e encontramos duas. As manifestações aqui estão longe dos grandes eventos que se vêem na Europa e na América. Raramente há tumultos e, dependendo da causa, os grupos são bem reduzidos. As manifestações de ontem são deste último tipo. Os grupos, juntos, não contavam mais de 100 pessoas, espremidas nas duas extremidades da mesma calçada, atrás da faixa amarela que orienta os deficientes visuais. Na margem da calçada, os jornalistas formavam um corredor polonês que era mantido livre por policiais e onde os transeuntes podiam circular sem serem `incomodados`. Minha primeira questão foi a razão de se fazer uma manifestação que não pudesse causar transtorno. Lembrei-me de meus momentos no Sindicato de Professores. Nós fechávamos as ruas em grandes passeatas e obstruíamos as entradas onde os donos do poder poderiam passar. Aqui a repressão policial é tão grande que, mesmo sem portar qualquer arma de efeito moral, eles conseguem manter a manifestação sob controle.
Os grupos estavam divididos mas a idéia central era a mesma: protestar contra a política ultra-nacionalista do Primeiro-ministro Shinzo Abe que declarou recentemente não ter do que se desculpar com as vítimas de abusos sexuais cometidos por japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Pesquisadores afirmam que mulheres de mais de dez países foram levadas para os locais de concentração de soldados japoneses para servir como prostitutas. Recentemente, o governo reconheceu a existência do serviço de conforto aos soldados, mas esquivou-se da responsabilidade por ele, alegando que as fornecedoras dos serviços eram empresas privadas. Uma pesquisadora presente à manifestação foi bastante cautelosa nas suas afirmações sobre o caso. Ela nos contou que o governo queimou as provas materiais do crime, mas que provas testemunhais são fartas. O governo e a justiça japoneses não os reconhecem como suficientes. A outra manifestação se referia à mudanças propostas pelos gabinetes do primeiro escalão com relação à defesa do país e ao ensino. Abe já chegou ao poder afirmando sua pretensão em alterar a Constituição Pacifista do país, redigida sob a ocupação norte-americana. Os defensores da idéia alegam que os tempos são outros e a Constituição foi redigida sem a participação do povo japonês. As recentes estrepolias da Coréia do Norte são a alegação mais forte, usada, inclusive, para mobilizar a opinião pública. Para os conservadores, passou da hora do Japão possuir um exército em condições de defender o país em caso de um ataque. No campo educacional, a proposta é inserir mais conteúdos de civismo nas escolas. Costumo dizer que um país que não oferece o suficiente para os seus é aquele que mais necessita investir em campanhas nacionalistas. O caso do Brasil na época da ditadura e durante o primeiro mandato do governo Lula é um dos meus preferidos. Parece que os jovens japoneses também não se importam com a Pátria. Não da maneira que os poderosos acham que deviam. Então, ao invés de oferecer para esses moços um lugar acolhedor, o governo quer ´ensiná-los` a amar o país. Os protestantes, claro, são vistos por este primeiro escalão de conservadores como anti-nacionalistas. Apenas por discordarem.
O Japão é um país bastante contraditório. Por trás de sua aura e aparência de homogeneidade, existe um país em turbilhão. Quando e se essa panela vai estourar, é uma incógnita. A verdade é que, aqui e ali, essas rusgas aparecem. O alto índice de suicídios especialmente entre jovens, os crimes domésticos de extrema violência, as garotas altamente maquiadas de Shibuya, a criminalidade entre os estrangeiros, a recusa das mulheres em terem mais filhos são alguns sintomas de que há faces na sociedade japonesa que precisam ser vistas. E estas estão se mostrando, mesmo quando o poder tenta escondê-las. Resta saber se elas terão voz algum dia, ou se a maioria vai preferir o colapso.
Os grupos estavam divididos mas a idéia central era a mesma: protestar contra a política ultra-nacionalista do Primeiro-ministro Shinzo Abe que declarou recentemente não ter do que se desculpar com as vítimas de abusos sexuais cometidos por japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Pesquisadores afirmam que mulheres de mais de dez países foram levadas para os locais de concentração de soldados japoneses para servir como prostitutas. Recentemente, o governo reconheceu a existência do serviço de conforto aos soldados, mas esquivou-se da responsabilidade por ele, alegando que as fornecedoras dos serviços eram empresas privadas. Uma pesquisadora presente à manifestação foi bastante cautelosa nas suas afirmações sobre o caso. Ela nos contou que o governo queimou as provas materiais do crime, mas que provas testemunhais são fartas. O governo e a justiça japoneses não os reconhecem como suficientes. A outra manifestação se referia à mudanças propostas pelos gabinetes do primeiro escalão com relação à defesa do país e ao ensino. Abe já chegou ao poder afirmando sua pretensão em alterar a Constituição Pacifista do país, redigida sob a ocupação norte-americana. Os defensores da idéia alegam que os tempos são outros e a Constituição foi redigida sem a participação do povo japonês. As recentes estrepolias da Coréia do Norte são a alegação mais forte, usada, inclusive, para mobilizar a opinião pública. Para os conservadores, passou da hora do Japão possuir um exército em condições de defender o país em caso de um ataque. No campo educacional, a proposta é inserir mais conteúdos de civismo nas escolas. Costumo dizer que um país que não oferece o suficiente para os seus é aquele que mais necessita investir em campanhas nacionalistas. O caso do Brasil na época da ditadura e durante o primeiro mandato do governo Lula é um dos meus preferidos. Parece que os jovens japoneses também não se importam com a Pátria. Não da maneira que os poderosos acham que deviam. Então, ao invés de oferecer para esses moços um lugar acolhedor, o governo quer ´ensiná-los` a amar o país. Os protestantes, claro, são vistos por este primeiro escalão de conservadores como anti-nacionalistas. Apenas por discordarem.
O Japão é um país bastante contraditório. Por trás de sua aura e aparência de homogeneidade, existe um país em turbilhão. Quando e se essa panela vai estourar, é uma incógnita. A verdade é que, aqui e ali, essas rusgas aparecem. O alto índice de suicídios especialmente entre jovens, os crimes domésticos de extrema violência, as garotas altamente maquiadas de Shibuya, a criminalidade entre os estrangeiros, a recusa das mulheres em terem mais filhos são alguns sintomas de que há faces na sociedade japonesa que precisam ser vistas. E estas estão se mostrando, mesmo quando o poder tenta escondê-las. Resta saber se elas terão voz algum dia, ou se a maioria vai preferir o colapso.
Labels: Japão


2 Comments:
Adorei seu post! Vou relatar algumas coisas que senti por aqui, porque entender, sem entender a língua também é uma forma de entendimento...
Vi uma vez uma manifestação no dia 1o de maio. Acho que isso faz uns 2 anos, era um sábado, chovia e deviam ter umas 50 pessoas, no máximo. Eu, como nunca tinha visto nenhuma aglomeração até então, achei divertido e mais que depressa a gente compara com o Brasil. Aqui, tudo organizado, com policia sempre, de olho. Na universidade onde dou aula fiquei boqueaberta quando soube que não existia um Diretório Estudantil. Estudante aqui só se reune para fazer festa e participar de clube. E outra, qualquer manifestação de nacionalismo aqui é vista com maus olhos, pois remetem ao Japão na época da guerra. Querem apagar a mancha da História, como? Censurando livros didáticos, impondo um silencio que é percebido no comportamento robotizado de muitos...
Também vejo como uma forma de protesto os Neets, os freeters, os caras pintadas de Tóquio...muita coisa louca para se entender aqui, acho que nem se ficasse aqui uns 50 anos teria uma noção clara... Beijos!
bom, no brasil nem é tão diferente.
apesar do maior furor do sangue latino e do maior numero de pessoas que participa, sempre as manifestações são mal vistas. quando uma classe se manifesta por melhoria nas suas condições de trabalho é vista como desordeira ou baderneira. O espírito nacionalista brasileiro é diferente do japonês, com certeza, não menor ou pior, mas tem isso como ponto em comum.
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