A VIDA É UMA MONTANHA-RUSSA
Ainda ontem eu estava todo alegre contando para vocês que tinha entrado pro mestrado e que tinha conseguido um trabalho na Record. Depois de um mês fazendo as duas coisas ao mesmo tempo foi conclusivo: não dá para conciliar e eu acabei saindo. Foram três meses super produtivos, trabalhando com uma pessoa que se tornou amiga e estando em Tóquio que é um lugar onde as coisas realmente acontecem. Mas, desde que começaram as aulas minha vida tornou-se um semi-inferno. Uma rotina estafante que por muito tempo eu não vivia. Isso porque, além da TV e das aulas (e todos encargos que elas trazem), ainda tenho a Revista Alternativa e meu professor me convidou para ser seu assistente. Para se ter uma idéia, na última sexta-feira eu quase me debulhei em lágrimas para dar conta de tudo que tinha que fazer como aluno, produtor, assistente de professor, jornalista, estrangeiro, amigo, homem... Muita cobrança, sem dúvida.
As aulas estão indo bem... e mal. Acho que dá para adivinhar o porquê. Estou há um ano e meio no Japão e cada vez mais consciente de que meu conhecimento de língua japonesa é mínimo. Mas, a exigência é máxima. As aulas são todas em japonês e eu nem posso dizer os professores não estão nem aí. Eu sinto no olhar deles o desespero contido quando eles olham nos meus olhos de quem não-está-entendendo-nada. Eles têm sido respeitosos comigo. O Professor Takenoshita, sempre preocupado com minha manutenção financeira, ficou preocupado quando eu lhe disse que deixaria a TV. A Professora Funabashi perguntou se eu não queria trocar o texto do meu seminário por algo em inglês. O Professor Minamiyama atuou como tradutor no meu seminário. Enfim, quem me conhece sabe como eu estou me sentindo: um peso. Eu não sei se isso é orgulho, mas eu detesto estar fora das expectativas. Na TV estava sentindo o mesmo. A cada entrevista em que a minha chefe olhava para mim e via que eu não conseguia entender o que falava o entrevistado, minha vontade era sumir.
Ontem fiz um seminário em japonês. Foi péssimo. Eu consegui ler o texto com a ajuda de um programa OCR que eu comprei. O programa escanea o texto e identifica os caracteres. Só o tempo que eu perdi identificando os caracteres incorretos... De qualquer forma, com o auxílio de uma extensão do Mozilla eu li o texto completo. (Só para explicar, o japonês é escrito com três tipos de caracteres: o ideográfico kanji e os “fonográficos” hiragana e katakana. A extensão Toogle Rikaichan identifica as palavras e dá a tradução em inglês.) Posso considerar que, mesmo com pouco conhecimento de gramática, entendi bem o texto. Porém, na hora de explicar em japonês, meu vocabulário é limitado. Criar frases para uma apresentação acadêmica, usando o linguajar formal e as expressões técnicas é tarefa impossível para mim no momento. O que eu fiz foi escrever as frases com base no que estava escrito no texto. O resultado foi uma colcha de retalhos e eu a “lendo” como se fosse uma criança de seis anos. Constrangedor. A única coisa boa dessa história toda foi receber a solidariedade dos meus colegas e, em certa medida, do professor. Embora, honestamente, depois de tudo o que eu tenho lido sobre o comportamento do japonês, fico me perguntando até que ponto isso é “pena”. (Aliás, até isso eu tenho vergonha de dizer porque, no lugar deles, eu ficaria ofendido se alguém achasse o mesmo.)
Honestamente, não vou dizer a vocês que isso tudo está sendo ruim. Não está. Eu estou aprendendo. Talvez não na velocidade que eu gostaria. Talvez não exatamente o que eu gostaria. Mas, estou aprendendo. Minha vida mudou muito desde que eu cheguei no Japão. Mais ainda nesses últimos três meses. Porém, me sinto sem confiança. Aliás, isso é interessante porque tinha pensado em fazer uma dieta e, de repente, nessas últimas duas semanas, me senti tão devastado que não consegui prosseguir. Queria saber porque eu não consigo fazer esforço para perder peso. Parece que eu quero compensar todo o cansaço que eu tenho vivido na comida. Aliás, eu ando pensando que tem sido o meu único prazer ultimamente. Alguém aí me sugere algo diferente? Não pode ser sexo porque ultimamente estou sem sex appeal nenhum. Parece que eu voltei a ser invisível...
Tsugi wa Shinagawa, Shinagawa desu.
Bem, trem-bala tem suas desvantagens. Eu podia escrever muito mais. Só que, pimba, estou em Tokyo.
Mamonaku Shinagawa, Shinagawa ni tochaku wo itashimasu.
Acho que vou ter novidades boas em breve. A vida é uma montanha-russa. Quer dizer, no meu caso, uma montanha-japonesa. Ok, trocadilho infame. Beijos.
As aulas estão indo bem... e mal. Acho que dá para adivinhar o porquê. Estou há um ano e meio no Japão e cada vez mais consciente de que meu conhecimento de língua japonesa é mínimo. Mas, a exigência é máxima. As aulas são todas em japonês e eu nem posso dizer os professores não estão nem aí. Eu sinto no olhar deles o desespero contido quando eles olham nos meus olhos de quem não-está-entendendo-nada. Eles têm sido respeitosos comigo. O Professor Takenoshita, sempre preocupado com minha manutenção financeira, ficou preocupado quando eu lhe disse que deixaria a TV. A Professora Funabashi perguntou se eu não queria trocar o texto do meu seminário por algo em inglês. O Professor Minamiyama atuou como tradutor no meu seminário. Enfim, quem me conhece sabe como eu estou me sentindo: um peso. Eu não sei se isso é orgulho, mas eu detesto estar fora das expectativas. Na TV estava sentindo o mesmo. A cada entrevista em que a minha chefe olhava para mim e via que eu não conseguia entender o que falava o entrevistado, minha vontade era sumir.
Ontem fiz um seminário em japonês. Foi péssimo. Eu consegui ler o texto com a ajuda de um programa OCR que eu comprei. O programa escanea o texto e identifica os caracteres. Só o tempo que eu perdi identificando os caracteres incorretos... De qualquer forma, com o auxílio de uma extensão do Mozilla eu li o texto completo. (Só para explicar, o japonês é escrito com três tipos de caracteres: o ideográfico kanji e os “fonográficos” hiragana e katakana. A extensão Toogle Rikaichan identifica as palavras e dá a tradução em inglês.) Posso considerar que, mesmo com pouco conhecimento de gramática, entendi bem o texto. Porém, na hora de explicar em japonês, meu vocabulário é limitado. Criar frases para uma apresentação acadêmica, usando o linguajar formal e as expressões técnicas é tarefa impossível para mim no momento. O que eu fiz foi escrever as frases com base no que estava escrito no texto. O resultado foi uma colcha de retalhos e eu a “lendo” como se fosse uma criança de seis anos. Constrangedor. A única coisa boa dessa história toda foi receber a solidariedade dos meus colegas e, em certa medida, do professor. Embora, honestamente, depois de tudo o que eu tenho lido sobre o comportamento do japonês, fico me perguntando até que ponto isso é “pena”. (Aliás, até isso eu tenho vergonha de dizer porque, no lugar deles, eu ficaria ofendido se alguém achasse o mesmo.)
Honestamente, não vou dizer a vocês que isso tudo está sendo ruim. Não está. Eu estou aprendendo. Talvez não na velocidade que eu gostaria. Talvez não exatamente o que eu gostaria. Mas, estou aprendendo. Minha vida mudou muito desde que eu cheguei no Japão. Mais ainda nesses últimos três meses. Porém, me sinto sem confiança. Aliás, isso é interessante porque tinha pensado em fazer uma dieta e, de repente, nessas últimas duas semanas, me senti tão devastado que não consegui prosseguir. Queria saber porque eu não consigo fazer esforço para perder peso. Parece que eu quero compensar todo o cansaço que eu tenho vivido na comida. Aliás, eu ando pensando que tem sido o meu único prazer ultimamente. Alguém aí me sugere algo diferente? Não pode ser sexo porque ultimamente estou sem sex appeal nenhum. Parece que eu voltei a ser invisível...
Tsugi wa Shinagawa, Shinagawa desu.
Bem, trem-bala tem suas desvantagens. Eu podia escrever muito mais. Só que, pimba, estou em Tokyo.
Mamonaku Shinagawa, Shinagawa ni tochaku wo itashimasu.
Acho que vou ter novidades boas em breve. A vida é uma montanha-russa. Quer dizer, no meu caso, uma montanha-japonesa. Ok, trocadilho infame. Beijos.
Labels: eu


1 Comments:
sim robertus, mas deixa eu te contar uma coisa interessante: na revista bravo vi um texto entitulado Licença para Gostar, onde ela (Marta Góes) conta que um amigo estava assistindo um espetáculo morderníssimo quando ouviu, da fileira em frente, um 'jornalista influente perguntar com ansiedade a sua editora: Nós estamos gostando?'
Ela continua, dizendo que deixa aparente as pequenas ditaduras do bom gosto e a complementar subserviência. 'É preciso ser CAetano Veloso para tirar Odair José desse lugar, é preciso ser Diogo Vilela e lotar teatros para que o grande público se sinta autorizado a orgulhar-se de Caibi Peixoto'.
Há também a citação de Nina Horta, que disse 'É bom que exista de tudo, mas pode deixar que a gente escolhe'. Mas, particularmente, acho que essa tal de Nina deve ter tbém licença para gostar.
E mudando um pouco a dimensão de universos, para mim você tem Licença para Gostar. Não sei se é pela sua (suposta) formação em cinema, que considero uma arte maior que a fotografia, ou se é pela sua sensatez quando estás calmo, ou simplesmente pelo fato de vc estar cursando uma faculdade (mesmo que não seja exatamente o mais popular da turma).
E por que eu disse que isto é interessante? Pô, vai me dizer que pessoas talentosas como eu te escrevem assim o tempo todo...
Post a Comment
<< Home