Wednesday, May 23, 2007

COMO SE PERDE O SONO...

Decidi deitar cedo. Amanhã, quero dizer, hoje, tenho uma reunião importante. Decidi me privar das minhas conversas animadas com a Fátima, da exposição pública da minha figura na medina virtual, da minha primeira tradução japonês-português e de tantos outros prazer menores e infames que compõem a minha vida noturna. Também comi umas besteiras para não gastar muito dinheiro. Disse 'tchau' a todo mundo nos meus mundos virtuais e fui para a cama.

O tempo começa a não fazer diferença quando, em flashes, você percebe que sua mãe joga golf profissionalmente no Japão e se comunica com os jogadores em português. Você transita em um mundo em que tudo e nada faz sentido. Tudo faz sentido. Nada faz sentido. Tudo faz sentido. Nada faz sentido. Tudo faz sentido, tudo. É difícil rememorar tudo. Mas, eu estava dormindo. E era um desafio. O desafio era não pular da cama... de medo. Alguém me dizia que eu estava em algo que poderia ser o inferno. E era calor o que eu sentia. Era para eu temer. E eu temia. Aconteciam coisas horripilantes. Eu não me lembro quais, mas eu tinha medo. E, de repente, algo me dizia que era um pesadelo, que estava tudo armado para que eu temesse. Então, eu me levantava e havia gente no outro quarto. Eu falava com eles, estava assustado, eles ainda não tinham se deitado. Chegavam de uma festa, parece. Eu voltava a dormir, aquela gente, aquele quarto era um sonho.

Então, eles tentaram de novo. Eu não era religioso, não me assustava com o sobrenatural. Tentaram o natural. Levaram-me para o alto de alguma coisa. Era a minha cama, solta no ar. E, estava eu em queda livre. Queda livre? Queda livre é o pesadelo mais idiota. Isso é sonho. Posso flanar, posso fazer a queda ser eternamente livre e sentir o vento bater no meu corpo. Então, apelaram para o humano. Alguém tentava me bater, me diziam que me cortariam a cabeça. Meu sonho me dizia que não há dor após a morte. Puseram-me entre um grupo de garotos, todos eles eram maus, o sonho me dizia. Eles iam me violentar, me bater. Eles podiam voar e eu era um corpo, apenas. Mas, me acoplei em um deles. Eu estava suspenso no ar com ele e me apoiava nos seus pés. Nós estávamos sós e eu me movia lentamente. O prazer era tanto que me dava um ranço nos dentes e um som rápido, mecânico e repetitivo começou a tornar-se mais e mais alto. Acordei com o tempo se ajustando, através do tic-tac do relógio. O sonho havia desistido de mim. Talvez tenha pensado: "esse cara não crê em deus, então não podemos atormentá-lo".

"Acorda e vai escrever algo."

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